COM MUITAS LÁGRIMAS OBEDECI
Um dia, o Pr. Reuel P. Feitosa, presidente da Missão Peniel, me disse:
“Guio, nós enviaremos você para qualquer país do mundo que você se disponha a ir!”
Apesar de muito grata pela confiança, respondi que me enviassem para qualquer lugar no Brasil, mas não para nenhuma cidade fora dele. Nem eu mesma entendi por que respondi assim; nunca fui apegada a lugares ao ponto de desobedecer ao “Ide!” segundo a vontade de Deus.
Algum tempo depois, nos cultos matutinos de domingo, o pastor Reuel começou a ler cartas vindas da Bolívia. Elas relatavam a urgência por uma missionária em Santa Cruz de La Sierra. Falavam de mulheres escravizadas pelo álcool, psicotrópicos e pela exploração sexual — histórias que as levavam a uma total decadência moral. Enquanto eu ouvia aqueles relatos tão tristes, meu coração sangrava. Eu chorava intensamente e pedia a Deus que levantasse alguém para atender aquele clamor.
Havia uma turma de seminaristas se formando, todos ansiosos por um campo missionário. Parecia natural que algum deles fosse enviado. Contudo, após a leitura de cada nova carta, várias pessoas vinham até mim e diziam:
“É você quem vai!”
Isso me irritava profundamente. Uma vez, respondi:
“E por que não você?”
Eu tinha consciência de que nenhum daqueles jovens formandos possuía experiência para um campo tão exigente. Mas, por outro lado, eu também lembrava que comecei sem experiência nenhuma, em uma época muito pesada.
Uma jovem recém-formada se dispôs com muita alegria. Apesar de meu coração me dizer que não era ela a pessoa escolhida por Deus, eu torcia para que fosse — e que tudo desse certo com ela. Além disso, o pastor Reuel não demonstrava interesse em me enviar.
As confirmações de Deus
Em meio à minha resistência, duas experiências marcaram profundamente a minha alma:
1. A voz inesperada no caminho
Eu estava subindo a Av. Afonso Pena quando quatro adolescentes vinham em sentido contrário. Um deles parou diante de mim e disse:
“Vá para a Bolívia!”
Meu Deus! Eu nunca tinha visto aquele garoto. Fui tomada por um temor indescritível.
2. A profecia inesperada
Dias depois, hospedada na casa de uma amiga, ela insistiu para que eu ligasse para uma senhora que havia sido liberta das drogas em Peniel e, hoje, membro de outra igreja. Eu só a conhecia de ouvir falar. Não queria ligar, mas pela insistência da minha amiga, decidi fazê-lo.
Assim que falei que era da Peniel, ela começou a recordar suas experiências… e, de repente, passou a falar em línguas e a profetizar. Usando-a, o Espírito Santo me disse que eu viajaria para algumas cidades e, em uma delas, eu ficaria — e seria muito feliz.
Chorei muito. Aquilo era de Deus. Ela nada sabia sobre minha possível ida para a Bolívia.
A jovem enviada — e o inesperado
Em um domingo de culto matutino, foi comunicado à igreja que aquela jovem recém-formada iria para a Bolívia. O culto inteiro foi preparado com o tema da obra em Santa Cruz de La Sierra: instrumentos, músicas, roupas típicas… tudo maravilhoso. Mas eu não estava em paz. Eu sabia que estava mentindo para mim mesma.
Dias depois, recebemos a notícia: a jovem sofreu um sério acidente automobilístico. Fui visitá-la com algumas amigas. Mesmo machucada, ela ria de si mesma. A recuperação seria lenta, mas a obra tinha urgência.
Então, surpreendentemente, o tesoureiro da igreja — que nem era ligado a missões — disse ao pastor Reuel:
“Por que não manda Guiomar?”
Fiquei impactada quando soube que a sugestão partiu justamente dele.
A rendição
Fui chamada para uma reunião no gabinete pastoral. Enquanto me apresentavam tudo o que eu já sabia — a urgência, o clamor, a necessidade — eu chorava copiosamente.
Então, falei com toda a sinceridade:
“Eu, Guiomar, não quero ir… mas a serva do Senhor vai, porque Ele quer que ela vá.”
Pastor Reuel, vendo meu estado, disse:
— “Como vamos mandar ela assim?”
E decidiu me dar mais quinze dias para pensar. Respondi que nada mudaria, pois eu tinha certeza da vontade de Deus. Ele insistiu.
Uma semana depois, nova reunião. E novamente em prantos, eu disse:
“Eu vou.”
A despedida inesquecível
Estávamos em congresso. No culto noturno de domingo anunciaram oficialmente minha ida para a Bolívia. O jogral do qual eu participava fez uma apresentação linda, entregando-me a bandeira da Bolívia.
De Salvador, alguns amigos e meu irmão Elizeu Rocha foram me prestigiar — uma surpresa maravilhosa.
Logo após o congresso, fui para São Paulo com minha querida amiga Elida Martins, liberada por seu marido, Marcos Rogério, que hoje está no Lar Eterno. O pastor Renê, presidente da ESMI, liberou todos os seminaristas para irem à minha despedida. Ele e sua esposa, D. Idelguita, também foram.
Com pandeiros, bombo, músicas bolivianas e muita algazarra, alguns choravam, outros cantavam, outros me abraçavam efusivamente. Eu estava muito feliz, grata, radiante com tanto carinho.
Quando o ônibus chegou, alguém perguntou, espantado com a multidão:
“Este ônibus vai para São Paulo ou é de algum artista?”
kkkkkkkkk!
Depois de embarcarmos, o ônibus — novinho — simplesmente não quis dar partida. Ficou preso. Os seminaristas, entre gargalhadas, apitos e gritos, empurraram o ônibus, levando o pastor Renê a brincar:
“Empurrada, mas foi!”
“Quer você se volte para a direita quer para a esquerda, uma voz atrás de você dirá:
‘Este é o caminho; siga-o.’”
(Isaías 30:21)