quarta-feira, 26 de novembro de 2025

 

UM OSSO DE PEIXE NA MINHA FARINGE

Mais ou menos em junho de dois mil e vinte, fiz aquela sopa de peixe que tanto gosto. Abro aqui um parêntese para lembrar o quanto a nossa vida é fugaz e como pode nos surpreender — com alegrias ou dores — em questão de segundos.

Eu e meu marido estávamos começando a degustar a nossa preciosa sopinha quando, mais ou menos na terceira colherada, senti que uma parte não comestível do peixe havia tomado o caminho errado. Tentei tossir para expelir, mas era tarde: minha epiglote havia falhado, e aquele corpo estranho, pontiagudo, ficou preso na minha faringe. Comecei a babar, minha respiração tornou-se ofegante, e eu mal conseguia articular algumas palavras. Disse ao meu marido que me levasse imediatamente a um médico. Pelo caminho, ensopei várias toalhas de papel com uma gosma grossa.

O médico que me atendeu no posto me encaminhou ao Hospital da Restauração, onde eu deveria passar por uma endoscopia.

Alguns meses antes, sempre que eu passava pelo Recife e seguia em frente ao Hospital da Restauração, estendia minhas mãos e orava pelos enfermos que ali estavam. Hoje, não tenho dúvida alguma de que eu mesma estava incluída naquelas orações.

Eu havia ido a esse hospital muitos e muitos anos antes, levando um dependente químico cuja perna estava apodrecendo. Foi uma experiência marcante, pois ali vi — ao vivo e a cores — a violência política contra a saúde pública, embora tenha sido muito bem recepcionada por alguns médicos competentes e humanos.

Pois bem, lá estava eu novamente, em um anexo do HR, aguardando a endoscopia. Poucas horas antes, no posto, passei pelas mãos de uma técnica de enfermagem que sequer sabia aplicar uma injeção intravenosa. Graças a Deus, depois de encher minhas mãos de hematomas e culpar minhas veias por sua incompetência, outro técnico — em dois minutos — conseguiu aplicar a medicação.

No anexo fomos informados, meu marido e eu, de que não seria possível realizar o procedimento naquela noite, pois eu havia ingerido alimento, e isso poderia acarretar complicações graves. No entanto, eu teria que passar a noite naquele enorme salão, com pacientes de enfermidades diversas, já que todas as enfermarias estavam lotadas.

Como todos, fiquei em uma maca estreita. Ao meu lado, um jovem teve uma crise de abstinência alcoólica; foi socorrido rapidamente, mas permaneceu agitado durante toda a noite. Estava na cama de cima de um beliche e, cada vez que descia, colocava os pés pretos na minha maca, empurrando-a. Decidi então sentar-me perto do meu marido, em uma das cadeiras que os técnicos ocupavam quando não estavam atendendo pacientes. Ali passei quase toda a noite, voltando à maca apenas em alguns momentos.

O banheiro ficava ao longo de um corredor intercalado por enfermarias lotadas. Vi parte do teto arriado, com a instalação elétrica exposta. O banheiro masculino, em frente ao feminino, não tinha porta; assim, ao sair do feminino, era possível ver algum homem sentado no vaso. Vi ainda uma senhora idosa em sua maca, diante de todos, com as pernas abertas, enquanto lhe faziam a higiene. Alguns dormiam profundamente, apesar das luzes acesas e do movimento constante. Os acompanhantes se acomodavam como podiam: deitados no chão, em cadeiras, circulando — assim permaneceram até o raiar do dia.

Agradeci muito a Deus pela oportunidade de compartilhar com aqueles pacientes o descaso proporcionado por governantes mercenários; e por comprovar que a mídia não inventa mentiras sobre a situação dos hospitais — ela revela uma nudez que os políticos tentam cobrir com seus mantos negros, feitos de discursos falsos e negação da verdade.

Apesar da falta de estrutura, os heróis da saúde tinham um sorriso amável no rosto e um olhar de compaixão. Fui muito bem atendida! Algumas médicas e técnicos, durante a noite, vieram ver como eu estava.

Nas primeiras horas da manhã, fui levada a uma pequena sala entulhada de móveis, onde uma médica e, creio, duas enfermeiras me receberam com carinho e explicaram o procedimento. Quando acordei, já estava no corredor de saída, com meu marido esperando que eu despertasse. Ele me entregou uma bolsa com o corpo estranho que, em poucos segundos, havia me mostrado um mundo desconhecido e cruel. Aqui está a foto:

Eu estava ali como todos, mas para um grande aprendizado. Até hoje não consigo dimensionar o que mudou dentro de mim em relação ao sofrimento de quem depende não só da saúde pública, mas também dos planos de saúde de classe média; e o que mudou em relação aos heróis da saúde, explorados por políticos corruptos e por donos de planos, obrigando muitos médicos a recorrerem a psicólogos e/ou psicotrópicos para manter a saúde mental — simplesmente por serem compassivos.

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”(Romanos 8:28)






Subscribe to Our Blog Updates!




Share this article!

Nenhum comentário:

Retornar para o topo da Página
Powered By Blogger | Design by Genesis Awesome | Blogger Template by Lord HTML